Entrevista do Dr. Alain para Sociedade Brasileira de Engenharia Biomédica

A pesquisa em Engenharia Biomédica é ampla e inerentemente interdisciplinar. Sendo assim, os inúmeros Centros de Engenharia Biomédica existentes no Brasil recebem profissionais e pesquisadores de diversas áreas do conhecimento com um único propósito: desenvolver e aprimorar tecnologias, processos e serviços a favor do bem-estar e saúde.

O Boletim da SBEB teve a oportunidade de entrevistar o Dr. Alain Haggiag, graduado em Odontologia pela USP-SP e especialista em Dor Orofacial, com mais de 20 anos de experiência na prática clínica, que nos conta como associou o lado “engenheiro” com a vocação de terapeuta, para desenvolver um dispositivo que auxilia no tratamento do Bruxismo. Esperamos que o depoimento do Dr. Haggiag seja fonte de inspiração para os inúmeros profissionais que desejam desenvolver tecnologias a favor do bem-estar e da vida.

“Agosto 1986, a hora de escolher o curso na Fuvest havia chegado: Engenharia ou Odontologia? Os meus pais sempre quiseram um dentista na família e me lembravam incessantemente que o meu irmão já havia escolhido o caminho da tecnologia! Da minha parte, sempre gostei muito de jogos e atividades manuais. Foi assim que, com 17 anos, escolhi a minha profissão! Hoje, 30 anos depois, vejo que consegui associar o meu lado “engenheiro” a minha vocação de terapeuta.

Em 2004, após 10 anos de clínica “tradicional”, tive a oportunidade de integrar o departamento de Dor Orofacial da Universidade de Paris e, em 2007, obtive o título de Especialista. Percebi que naquele momento a minha visão da odontologia havia mudado para sempre. Retornando ao Brasil, “vaguei” por vários cursos e departamentos de estudo e pesquisa na área de Dor Orofacial e finalmente em 2009 fui apresentado ao Dr. Siqueira e ao seu grupo de pesquisa do Hospital das Clínicas da USP. Pesquisador reconhecido internacionalmente, coordenando um grupo de estudo seríssimo; era exatamente o que eu precisava para dar “asas” a um projeto de pesquisa quase inédito no mundo: demostrar que os indivíduos que sofriam de dores nos músculos da mastigação (masseter e temporal) apresentavam mais contatos dentários durante a vigília do que aqueles sem dor. O quase ineditismo desse assunto trazia algumas dificuldades importantes: escassa literatura, desconhecimento de muitos profissionais e estudiosos da área e falta de incentivo acadêmico e financeiro. Além disso, a quebra de paradigmas que essa pesquisa poderia trazer não seria bem aceita por todos. De fato, o Bruxismo sempre foi visto como um distúrbio associado ao sono. Mas, a minha determinação e o embasamento científico eram os meus maiores aliados para enfrentar os obstáculos que iriam se apresentar.

O objetivo inicial era desenvolver um “contador de toques dentários”, isto é, um dispositivo eletrônico intrabucal capaz de registrar todos os contatos entre os dentes. Seria um teste diagnóstico muito interessante para pacientes portadores de mialgias orofaciais e outros distúrbios articulares. A busca por essa inovação tecnológica iniciou-se em 2012 no departamento de Engenharia elétrica da Poli-USP. As dificuldades inerentes à criação de um aparelho de dimensões mínimas, baterias, circuitos e sensores instalados no meio bucal, banhados por saliva e sofrendo pressões altíssimas e diferenças repentinas de temperatura, contribuíram para a busca de opções alternativas. A visão técnica e inovadora do Prof. Adriano Andrade, coordenador do departamento de Engenharia biomédica da Universidade de Uberlândia, me ajudou a perceber que uma mudança estratégica era necessária. Em vez de desenvolver um dispositivo para diagnóstico, seria mais fácil e até mais interessante trabalhar na criação de um aparelho para o controle destes hábitos parafuncionais. Foi assim que, em junho de 2016, nascia o DIVA – Dispositivo Interoclusal de Vigília – (patente requerida). Este dispositivo teria a capacidade de monitorar em tempo real a condição contrátil dos músculos da mastigação e da ATM por meio da “leitura” do espaçamento interoclusal e “alertar e ajudar” o paciente a se conscientizar da parafunção e retornar, assim, a sua posição de repouso. Esta abordagem terapêutica baseada nos conceitos do Biofeedback, constitui, segundo pesquisas mais recentes, a maneira mais eficiente para reverter estes hábitos nocivos. Além de servir de “alarme”, o tratamento com o DIVA que é reversível, não invasivo e que não requer o uso de nenhuma substância química, ajuda a promover uma reconfiguração no sistema de envio dos sinais dolorosos ao cérebro reduzindo, assim, a sensibilização central à dor.

O DIVA foi testado durante 3 meses por mais de 65 pacientes que apresentavam dor na região dos músculos da mastigação e nas ATM (Articulação Temporo Mandibular) com resultados clínicos muito encorajadores. Uma melhora de mais de 85% no índice de dor foi relatada pelos pacientes após 90 dias de tratamento.

Tenho esperanças que, enfim, poderemos controlar e atenuar de uma maneira não medicamentosa essas dores crônicas, intimamente ligadas ao estresse e à ansiedade, tão comuns nos dias de hoje.”

Sobre o Dr. Alain Haggiag

Dentista com 20 anos de experiência na área clínica. É formado pela USP em 1994, pós-graduado em DTM e Dor Oro-Facial pela Universidade de Paris e pela Faculdade de Medicina da USP, e membro da SBED e SBDOF. Em 2004, durante a pós-graduação, começou a pesquisar e desenvolver um tratamento inovador para o bruxismo de vigília por meio do uso do DIVA® (Dispositivo Interoclusal de Vigília), com foco na reversão de hábitos, que hoje aplica em seus pacientes.

25/07/17 | Notícia publicada no site Sociedade Brasileira de Engenharia Biomédica (SBEB)

2017-07-31T10:59:31+00:00